Do Cafofo do Dezena - Crônica Viva - OVO

Fonte: Jornal do Parabrisa 25/05/2026

Em meu íntimo, preciso encontrar o motivo, mas a comida invadiu a crônica. Na semana passada, foram os pães de queijo nos encontros corporativos. Sei que o danado vai muito bem, na padaria, logo pela manhã, com café e leite. Mas quem povoou os meus p...

Do Cafofo do Dezena - Crônica Viva - OVO
Anúncio
Em meu íntimo, preciso encontrar o motivo, mas a comida invadiu a crônica. Na semana passada, foram os pães de queijo nos encontros corporativos. Sei que o danado vai muito bem, na padaria, logo pela manhã, com café e leite. Mas quem povoou os meus pensamentos, de lá para cá, foi o versátil ovo. É tão aceito que passa pela chapa da lanchonete na esquina da Sé e aporta numa travessa da Casa do Bacalhau, em Lisboa.


Sempre conto esta história, mas muitos torcem o nariz ao ouvi-la. Na minha infância modesta em Águas da Prata, algumas vezes, esperava a galinha botar para ter a mistura do almoço. O roteiro é assim: quando a emplumada sente que é hora de pôr o ovo, afasta-se lentamente do grupo, fica muito apreensiva, olha para todos os lados desconfiada. Sob o bico, no gogó, um tremor aparece.


Finalmente, sentindo-se segura, vai para o ninho. Feito o trabalho, afasta-se com o mesmo cuidado e canta como se não houvesse amanhã. Geralmente, põem em cestos arrumados outras fogem para o mato e constroem os seus próprios ninhos. Após algum tempo, a surpresa: aparecem com aquele bando de pintinhos amarelinhos. Cisca daqui, cisca de lá e vai ensinando os pequenos como arrumar comida. Às vezes, estabanados como são, os filhotes acabam sob os pés da mãe. "Pé de galinha não mata pintinho", diz o ditado. Ah! Importantíssimo: o indez. Se ela não o encontrar no ninho, não bota ali.


Se não bota, adeus omeletes com queijo e presunto. Mas não é só no omelete que ele fica bom. Quando crianças, tomávamos ovo quente com sal. Depois de ferver um tempo, tirávamos a pontinha da casca e, com a colherzinha, comíamos até não sobrar nada. Ainda vejo meu pai, geladeira aberta, quebrando o ovo cru e deixando-o escorrer garganta abaixo. Nunca me atrevi. Sim, sim, cozidos ficam maravilhosos em uma salada ou mesmo nos bares de categoria duvidosa, antes da cachaça. Esperam na vitrine, não sei por quantos dias, até o freguês pedir.


Palíndromo: que nome feito para algo tão simples. Comecei falando do ovo, passei para a galinha e voltei para o ovo. O problema é pequeno. Acontece que ninguém conseguiu decifrar a charada de quem veio primeiro. Afinal, que importância tem? Ele na frigideira, ela na panela: abraçados ao arroz branco no prato, qualquer um dos dois salva o almoço.
 
Fernando Dezena

Anúncio

Veja também

© 2000 - 2026 www.guiasaojoao.com.br — Todos os direitos reservados.