Por Pedro Souza
Conflitos internacionais e crises no mercado de energia podem afetar diretamente o preço dos combustíveis no Brasil, inclusive em cidades do interior como São João da Boa Vista. A avaliação é do sanjoanense Rafael Valim Pereira, especialista em geopolítica aplicada aos mercados e diretor de área em uma das cinco maiores distribuidoras de combustíveis do País.
Com atuação no mercado internacional de petróleo e derivados, Rafael explica que a dinâmica global de produção, refino e distribuição de energia faz com que eventos ocorridos do outro lado do mundo impactem o valor pago pelo consumidor na bomba.
“Como geógrafo, observo a geopolítica e como os mercados se comportam em relação a ela. Isso é fundamental em momentos como este, em que o que acontece no mundo impacta diretamente nos mercados locais”, afirmou.
Geógrafo de formação, com pós-graduação em Economia, Rafael nasceu em São João. Embora tenha passado a infância e a adolescência fora da cidade, ainda mantém um forte vínculo com o município onde vivem familiares e que visita com frequência.
Por volta dos 25 anos, voltou a São João e ajudou a fundar, ao lado de um sócio, um escritório ligado ao mercado financeiro. O negócio foi posteriormente vendido, em 2018, mas a empresa continua em atividade na cidade.
Grande parte da trajetória profissional de Rafael foi construída no mercado de derivativos. No mesmo ano em que deixou o escritório em São João, passou a atuar diretamente no setor de petróleo, inicialmente trabalhando com contratos futuros. Depois, migrou para o mercado físico de importação de combustíveis, com foco em cargas de diesel.
Atualmente ele lidera uma equipe de 11 profissionais, entre traders de diesel, gasolina e petróleo, responsável por avaliar oportunidades de compra no mercado internacional.
“Somos um dos principais importadores de diesel do Brasil. Dependendo da sazonalidade, chegamos a figurar como o maior importador”, explicou.
CONEXÃO GLOBAL DO COMBUSTÍVEL
Segundo ele, o combustível que abastece os postos brasileiros nem sempre vem apenas de refinarias nacionais. Há um fluxo constante de importação de diesel e gasolina, então as cargas são adquiridas em diferentes partes do mundo, como Estados Unidos, Europa, África ou países do Golfo Árabe, sempre com base na melhor condição financeira disponível no mercado.
Em cenários de guerra ou instabilidade geopolítica, a volatilidade do mercado aumenta e os custos de produção e transporte podem subir. Em apenas três semanas, a guerra entre EUA-Israel contra o Irã criou o maior choque da história do petróleo. O impacto mais severo está ocorrendo na Ásia, mas contamina o mundo todo.
Um dos exemplos, segundo o especialista, é o impacto no diesel provocado pela guerra entre EUA-Israel contra o Irã. A região do Golfo Pérsico é uma das principais produtoras de petróleo, gás e derivados do planeta. A ruptura de suprimentos começa a ocorrer quando as restrições impostas no Estreito de Hormuz por onde passavam mais de cem navios por dia com produtos vai à zero.
O Golfo Pérsico é o principal supridor de diesel, querosene de aviação e gás natural para a Europa, e mercados asiáticos. Com a interrupção desse fluxo, os países europeus e asiáticos, especialmente da Oceania passaram a buscar produtos no Golfo dos EUA. A restrição aos navios que estão parados dentro do Golfo Pérsico, também fez o frete marítimo atingir recordes históricos.
“A questão do gás natural é que o principal uso dele é para produção de energia. Quando esse produto falta, passa-se a consumir diesel. É um efeito em cadeia”, explicou.
Segundo Rafael, algo semelhante ocorre com o querosene de aviação (QAV), que no processo de destilação do petróleo disputa espaço com o diesel.
“No refino do petróleo existe um equilíbrio entre os derivados. Refinarias mais modernas conseguem ajustar a produção entre QAV e diesel. Como o Golfo Pérsico é um grande produtor de QAV, quando ocorre uma ruptura no fornecimento para a Ásia, esse mercado passa a comprar o produto nos Estados Unidos, o que também acaba pressionando os preços do diesel”, afirmou.
Por isso, mesmo em períodos em que o preço do barril de petróleo permanece estável, o valor do diesel pode sofrer aumentos em função dessas mudanças no mercado global de energia.
REFLEXOS NO BOLSO DO CONSUMIDOR
Como o Brasil depende de importações para complementar o abastecimento, boa parte desses custos internacionais acaba sendo incorporada ao preço final do combustível vendido no país. Existem subsídios do governo, porém, eles não cobrem tudo. O diesel subiu 70% nas últimas três semanas.
Na prática, isso significa que crises energéticas ou conflitos geopolíticos podem refletir diretamente no bolso do consumidor brasileiro, inclusive em cidades do interior.
Para Rafael, essa relação mostra como a economia local está conectada ao cenário global. O preço pago pelo motorista em um posto de São João pode ser influenciado por decisões políticas, disputas energéticas e mudanças no mercado internacional de energia.