Por Bruno Manson
O assassinato de Joice Ariana da Cruz Oliveira, 29, na madrugada do Domingo de Páscoa (5), em Aguaí, gerou grande comoção nas redes sociais e chamou atenção para o aumento de casos de feminicídio — quando a vítima é morta apenas pelo fato de ser mulher — que tem ocorrido em todo Estado de São Paulo. Ela foi golpeada com mais de 30 facadas após ser perseguida pelo ex-namorado, Rafael Pereira dos Santos, 38, próxima à praça dos Aposentados, na Vila Seca. O crime foi registrado por câmeras de segurança e as imagens rapidamente se espalharam pelas redes sociais.
Segundo uma testemunha, Joice teria ido se encontrar com o suspeito. Apesar de não estarem namorando, eles ainda mantinham um relacionamento amoroso e até tinham ido viajar recentemente. De acordo com o relato, o homem chegou ao local dirigindo um caminhão e insistiu para que a mulher entrasse no veículo. Diante da recusa, ele passou a persegui-la com uma faca.
A vítima foi alcançada na rotatória, onde Rafael a atacou. Mesmo após ela cair, o agressor continuou a golpeá-la. Ele fugiu logo em seguida, levando a faca — que não foi localizada.
Um guarda-civil municipal que mora nas imediações ouviu os gritos de socorro e, ao verificar a situação, encontrou Joice já sem sinais vitais. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado e a equipe médica constatou a morte dela no local.
Rafael foi localizado e detido pela Polícia Militar em uma área rural entre Aguaí e São João da Boa Vista. Ele foi encaminhado ao Plantão Policial e permanece preso à disposição da Justiça. O caso ganhou repercussão nas redes sociais, gerando indignação e até mesmo questionamentos sobre o desaparecimento de uma ex-companheira do agressor. Conforme apurado, o indivíduo possui antecedentes criminais por roubo — em propriedade rural — e tentativa de homicídio.
CASOS ANTERIORES
Este foi o terceiro feminicídio registrado em Aguaí somente neste ano. O primeiro aconteceu na noite de 4 de fevereiro, quando Valter Humberto Reis Valente, 49, matou a esposa Roseli Candido Valente, 48, com um tiro no rosto e se trancou na própria residência, localizada no bairro Dona dos Anjos Macedo. As equipes do Grupo de Atuações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar, Samu, Corpo de Bombeiros e Guarda Civil Municipal atuaram de forma integrada até a prisão do homem. Durante a ação — que durou mais de seis horas —, ainda houve troca de tiros e um policial militar acabou baleado na mão esquerda, necessitando ser socorrido e encaminhado para São João da Boa Vista.
Já o segundo feminicídio ocorreu em 8 de março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher. A costureira Simone Aparecida Thomé, 53, foi encontrada morta dentro de casa, no Jardim Aeroporto. A mulher foi encontrada na cama e apresentava escoriações nas mãos, no braço esquerdo e no joelho, além de vestígios de sangue na boca e sob as unhas. A principal suspeita é que a morte tenha sido provocada por asfixia. O companheiro dela, o trabalhador rural Luís Renato Ferreira, 36, foi preso em flagrante e apresentava arranhões no pescoço. Durante a ocorrência, o suspeito não demonstrou abalo emocional ou sinais de tristeza com a morte da companheira.
ESCALADA DO FEMINICÍDIO
De acordo com os dados mais recentes da Segurança Pública de São Paulo (SSP), o Estado de São Paulo registrou aumento de 45% no número de vítimas de feminicídio em fevereiro deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025, passando de 20 para 29 mulheres mortas.
No acumulado do ano, 56 mulheres foram assassinadas em apenas dois meses. O número representa aumento de 33% em relação ao ano anterior, quando houve 42 vítimas desse tipo de crime no primeiro bimestre do ano.
Os casos de estupro chegaram a 1.212 registros em fevereiro de 2026 ante 1.201 no mesmo mês de 2025, com aumento de 11 casos. No acumulado de janeiro e fevereiro, houve redução, passando de 2.487, no ano passado, para 2.397 registros em 2026, ou seja, 90 casos a menos.
Já o número de homicídios dolosos — quando há intenção de matar — teve queda tanto no mês como no acumulado. Foram 179 casos notificados em fevereiro deste ano, uma queda de 11% em relação a fevereiro de 2025, quando houve 201 registros.
Em janeiro e fevereiro deste ano, foram 369 boletins de ocorrências de homicídio doloso, 11,3% a menos comparado ao mesmo período de 2025, quando houve 416 registros. Os latrocínios — roubo seguido de morte — seguiram a mesma tendência, já que o número de casos caiu de 10, em fevereiro do ano passado, para cinco no intervalo deste ano. No acumulado do bimestre, os registros desse tipo de crime passaram de 28 para 12 casos, uma queda de 57%.
CANAIS DE DENÚNCIA
A tecnologia tem reforçado a rede de atendimento voltada à proteção às mulheres vítimas de violência. Entre as principais iniciativas está o aplicativo SP Mulher Segura, que permite o acionamento do “Botão do Pânico” (SOS) em casos em que há medida protetiva, além de possibilitar o registro de boletins de ocorrência diretamente pelo celular.
Outra ferramenta importante é a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) Online, que oferece atendimento 24 horas por dia por meio do site da Polícia Civil, permitindo que vítimas registrem ocorrências sem precisar sair de casa. A medida busca facilitar o acesso à denúncia e garantir mais agilidade no atendimento.
Além dos serviços digitais, o Estado de São Paulo conta com uma estrutura física composta por 141 Delegacias de Defesa da Mulher, sendo 18 delas com funcionamento ininterrupto, garantindo atendimento especializado a qualquer hora do dia.
Para denúncias anônimas, a população também pode recorrer ao Disque Denúncia, por meio do telefone 181, ou utilizar a plataforma WebDenúncia. As ações integram um conjunto de políticas públicas voltadas à ampliação do acesso à justiça e à proteção das mulheres em todo o território paulista.