Por Bruno Manson
A implantação do trem turístico regional, que pretende ligar o sul de Minas Gerais ao interior de São Paulo, ganhou impulso nesta segunda-feira (6) com uma reunião promovida pelo ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, envolvendo órgãos federais, autoridades, associações comerciais, conselhos municipais e entidades. O encontro foi realizado de forma virtual e ficou marcado pela ampla representatividade e pela cooperação entre diferentes esferas de governo e setores da sociedade civil para transformar esse antigo sonho em realidade.
A iniciativa prevê uma rota conectando a cidade mineira de Poços de Caldas aos municípios paulistas de Águas da Prata, São João da Boa Vista e Aguaí, com paradas estratégicas nas estações existentes. O projeto tem como objetivo impulsionar o turismo regional de forma sustentável, valorizando o patrimônio ferroviário, incentivando o turismo cultural e, consequentemente, promovendo o desenvolvimento econômico regional.
PONTOS DISCUTIDOS
Durante a reunião foram tratados pontos importantes para a implantação do projeto. Na ocasião, o secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Ribeiro, se colocou à disposição para buscar a melhor solução em relação aos trechos por onde o trem turístico irá passar.
Ao comentar sobre a implantação da linha turística, a diretora de Projetos e Obras Ferroviárias da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Maryane Araújo, explicou que a malha local integra um montante de 10 mil quilômetros de ferrovias para os quais já foram contratados estudos, em parceria Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para decidir sobre sua destinação. A expectativa é que este levantamento fique pronto até fevereiro de 2026. Diante disso, ela orientou as prefeituras envolvidas para que apresentem um pedido de intensão junto à ANTT para que sejam considerados no documento do BID. A diretora observou que a existência de estudos feitos pelos municípios — que devem ser concluídos em 20 dias — facilita o processo de organização de um chamamento.
O diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), Fabrício Galvão, afirmou que o órgão pode fazer qualquer concessão que for importante para as cidades viabilizarem o trem turístico, porém, a maior dificuldade seria encontrar operadores. “Uma das possibilidades é fazer um chamamento público para ver se alguém tem interesse em operar o sistema ou as prefeituras ou o Ministério do Turismo”, disse.
Já o superintendente de Transporte Ferroviário da ANTT, Alessandro Baumgartner, destacou que é possível colocar um operador de trem de passageiros no trecho já concedido para carga e o investimento para isso seria baixo. No entanto, o representando a VLI Logística/Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), José Oswaldo, afirmou que o contrato da concessionária é exclusivo do transporte de carga — e restrito à bauxita. Ele reconhece a vocação turística da região, porém, avaliou que o grande potencial seria o transporte de passageiros. Em sua visão, o percurso não serviria apenas ao turismo, mas também ao transporte regular de pessoas e sugeriu que essa possibilidade seja analisada, colocando a empresa à disposição para colaborar tecnicamente, uma vez que já opera o trem turístico de São João del-Rei (MG).
PRÓXIMOS PASSOS
O debate terminou com a definição das próximas medidas que serão tomadas. A primeira é a conclusão dos estudos municipais e consolidação em um dossiê regional, o qual deverá ser protocolado no Ministério dos Transportes (MT). Também deverá ser realizada uma análise técnica conjunta — entre MT, DNIT e ANTT — e, posteriormente, uma reunião ampliada com acionistas da VLI e o Ministério do Turismo. Outra meta estabelecida é avançar nas tratativas de cessão da estação de Águas da Prata.
Paulo Teixeira destacou que o projeto do trem turístico regional une “tradição e futuro” e pode se tornar um grande cartão de visitas da região, conectando o turismo, a produção agrícola e a história ferroviária.
Na ocasião, ele anunciou que o Ministério dos Transportes promoverá uma nova rodada de reuniões com os acionistas da VLI/FCA e com o Ministério do Turismo para definir o modelo de operação. “Na primeira viagem [do trem turístico] quero todos vocês juntos, tomando café, vinho e comendo queijo e goiabada […]. O retrato de uma região unida e produtiva”, disse o ministro, citando alguns dos itens que são referência da gastronomia regional. “Com a união de municípios, câmaras, conselhos, associações e o apoio técnico do governo federal, o projeto do trem turístico regional se firma como símbolo de cooperação, sustentabilidade e orgulho do interior paulista e mineiro”, destacou.
Representando São João da Boa Vista durante o encontro estavam o prefeito em exercício dr. José Eduardo dos Reis (PSB), o vereador Leandro Thomazini (PT), o diretor de Turismo, Marcelo Alexandre Correia, o Conselho Municipal de Turismo, a Associação Comercial e Empresarial (ACE) e a Associação de Amigos da Serra da Paulista. A reunião ainda foi acompanhada pelo assessor parlamentar Miguel Paião, que representou o deputado estadual Luiz Fernando Teixeira (PT).
Prefeituras encaminharam ofício conjunto à VLI para tratar sobre o uso da linha férrea
As prefeituras de São João da Boa Vista, Águas da Prata, Aguaí e Poços de Caldas protocolaram recentemente um ofício conjunto endereçado à VLI Logística. A meta é obter autorização para o uso turístico da via permanente sob gestão da concessionária, visando a implantação do trem turístico regional. O pedido estabelece que a operação turística ocorrerá em caráter complementar, sem causar prejuízo ou interferência nas operações ferroviárias de carga regulares da concessionária.
ARTICULAÇÃO E ACOMPANHAMENTO
O projeto é resultado de tratativas intermunicipais iniciadas com uma Carta de Intenções firmada em junho de 2025. O prefeito de São João da Boa Vista, Vanderlei Borges de Carvalho (PSD), designou o diretor de Turismo, Marcelo Alexandre Correia, para atuar diretamente no acompanhamento e na articulação deste processo, garantindo o alinhamento de informações e ações entre o município e os demais envolvidos.
A iniciativa já foi debatida em âmbitos federais e estaduais, incluindo reuniões no DNIT e no Ministério dos Transportes, além de encontros com a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo.
Conforme apurado, os Estudos de Viabilidade Técnica (EVT) estão concluídos em São João da Boa Vista, Poços de Caldas e Águas da Prata, e em desenvolvimento no município de Aguaí. No ofício, as prefeituras solicitam à VLI não apenas a autorização, mas também a indicação formal do rito processual e dos requisitos necessários para a utilização da ferrovia para fins turísticos.
Os prefeitos se comprometeram a observar integralmente as exigências legais e regulatórias da ANTT e as normas internas da concessionária. Este compromisso engloba a apresentação de planos de segurança detalhados, a designação de um responsável técnico habilitado e a criação de uma matriz clara de responsabilidades entre os municípios parceiros.