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08/09/2016 | 16:39

Grafite da Av. João Osório desaparece sob nova tinta

Jornal O Município | Jornalismo

Nesta sexta-feira, dia 3 de setembro, o grafite que havia no muro da esquina da Avenida João Osório com a Rua da Saudade foi totalmente encoberto por uma nova pintura. A ação, que pegou de surpresa grande parte dos sanjoanenses, foi realizada pelo UniFAE. O grafite fez parte das intervenções urbanas na 10º Semana Fernando Furlanetto.

Em comunicado distribuído à Imprensa, a assessoria de imprensa daquela instituição justifica o fato dizendo que “... a pintura do muro do prédio que vai abrigar o Ambulatório Médico da UNIFAE visa atender aos requisitos exigidos para o funcionamento desta importante unidade de saúde que será entregue à população...”

No entanto, ela não considera porque o grafite ali existente nunca atrapalhou o Pronto Socorro que funcionava no mesmo local. No comunicado, o UniFAE afirma que: “... mesmo com a deterioração natural apresentada no painel, consultou o Curador da Semana [Fernando Furlanetto-2015], Eduardo Menezes, informando-o sobre a necessidade de remoção do grafite”.

Porém, ao ser questionado a respeito, Menezes respondeu: “Uma pena o que aconteceu. Não tive muito que fazer. Só pude argumentar que o UniFAE estaria apagando um patrimônio cultural da cidade. Foi realmente impactante, pois era a nossa principal obra da [Semana] Furlanetto”.

 

 

Na tentativa de minimizar o impacto da surpresa, o UniFAE declarou que ofereceu um novo espaço, ainda a ser definido, para a execução de outro trabalho de artistas, em data também a ser combinada. Eduardo Menezes afirmou que as despesas dessa ação devem correr por conta da universidade, mas essa decisão não consta do comunicado UniFAE.

Consultada a respeito da ação que encobriu o grafite, a Prefeitura sugeriu que O MUNICIPIO consultasse o Unifae, optando por não opinar sobre o caso antes que aquela universidade o fizesse.

 

 

 

SUCESSO

A edição do dia 14 de junho de 2015 da Folha de São Paulo destaca São João exatamente pelos desenhos pintados em diversos locais do município, com a manchete “Com muros e ruas coloridos, cidade paulista tem dias de ‘capital do grafite”.

Um parágrafo da reportagem da Folha revela: “São muros coloridos por grafiteiros como Onesto, Tinho Nomura (autor do grafite apagado, um dos maiores grafiteiros do País), Magrela e o argentino Mart Aire. E acrescenta um depoimento: “A ideia é promover a ocupação da cidade, saindo do tradicional espaço expositivo e levando arte e cultura de qualidade para as ruas, para alcançar toda a população”, explicou Anselmo Dutra, um dos curadores da Semana.

Hoje, em face do ocorrido no dia 3, último, Anselmo considera: “A arte no espaço público tem uma importância muito grande, criando um diálogo entre as pessoas que vivem a volta desse lugar. Em específico, a obra do artista Tinho (Walter Nomura) foi um presente de corpo e alma dado pelo artista para São João”.

Por estar na entrada da cidade, Anselmo aponta: “Podíamos dizer que [o grafite apagado] se tornaria um cartão de visita, sendo fotografada por muitas pessoas que estavam de passagem e pelos próprios moradores, que se deslocavam de outros bairros para apreciar a obra. Como o foi o tema da X Fernando Furlanetto ‘A Permanência do Efêmero’, nós estamos vendo uma grande obra ir-se no tempo que foi concedida”.

EDUARDO MENEZES FALA SOBRE O GRAFITE APAGADO

"Quando criamos o conceito da X Semana Fernando Furlanetto (2015), 'A Permanência do Efêmero', vínhamos de uma profunda reflexão de que as obras que viriam a ser produzidas durante essa 'Furlanetto' teriam prazos diferentes de duração. Algumas iriam durar uma semana, outras apenas um ano, outras duzentos anos. Tudo teria um começo, um meio e um fim.

Foi impactante ver que a realidade foi nos mostrando a dinâmica da duração das obras. Sentimos que as obras mexeram com o cotidiano do sanjoanense, alterando a sua paisagem, suas formas, suas cores e causando, ocasionalmente, polêmicas e discussões.

O primeiro grafite a sofrer uma modificação foi a obra do artista Alex Senna, ao lado do Instituto, onde passaram uma demão de tinta na parte inferior da obra. Os painéis de fotos que deixamos em algumas praças e no Skate Plaza, foram sendo sistematicamente vandalizados e depredados.

A exceção foi o ensaio do fotógrafo Gil Sibin na praça da Primeiro de Maio, que ficou intacto por quase um ano.

O UnFAE me chamou semana passada para uma reunião, onde fui comunicado que o muro ao lado do posto de Saúde na entrada da cidade (local da obra do Tinho), teria de ser pintado. Me explicaram que o posto de saúde deve entrar em conformidade com os padrões estéticos segundo as normas do Ministério da Saúde. Não teriam outra alternativa a não ser apagar a obra.

Neste momento, percebi novamente que o conceito da 'Semana' se encaixava mais uma vez ao momento presente, onde é mostrada a efemeridade da obra, como foi o caso deste grafite. Foi realmente triste vermos a obra maravilhosa do artista Tinho Nomura sumir da paisagem sanjoanense de um dia para outro.

Argumentei que eles estariam apagando um pedaço do patrimônio cultural da cidade; que essa obra reverenciava a obra do próprio Fernando Furlanetto - da escultura 'Mãe e Filha'- e a linha do pôr-do-sol pintada pelo artista, que coincidia com a linha do pôr-do-sol real. A obra fazia uma reflexão sobre ternura, tristeza e a questão do caos do universo urbano, onde prédios saíam da terra como foguetes. As manchas coloridas em perspectiva simulavam roupas dobradas, característica da obra desse grande artista do grafite. Este grafite se foi para sempre, mas por outro lado temos a oportunidade de fazermos outras obras, um incentivo para continuarmos difundindo esses trabalhos de grafite, tão belos e tão efêmeros.

O UniFAE se propôs a custear a vinda do mesmo artista (ou outro do mesmo

nível) para acharmos um novo muro e fazermos mais uma obra. Chamaram atenção de a obra já estar começando a descascar, mas na minha opinião, esse muro era realmente especial.

É interessante vermos a ação do tempo levar de nós a obra.

E como tudo é efêmero nessa vida."

Fonte: Jornal O Município

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