Há 88
anos a cidade de São José do Rio Pardo presta um culto singular à memória do escritor
Euclides da Cunha.
A repetição anual e sistemática da comemoração deu origem a uma tradição
que, ao longo do tempo, criou vínculos profundos com a coletividade que a pratica,
passando esta a influenciar o seu desenvolvimento.
A Professora Regina Abreu, que estudou essa tradição, diz que tem absoluta
convicção de que a tradição das Semanas Euclidianas sobreviveu ao longo dos anos por
preservar importantes tesouros para a sociedade brasileira do porvir. Para ela, a
cidade realizou um trabalho admirável de guardião da memória, preservando
relíquias, objetos, datas, lugares, monumentos, rituais e comemorações, todos
enriquecidos de valores símbólicos e evocativos, carregados de sentido sagrado, de
valores culturais, do sentido de patrimônio cultural. Parafraseando o antropólogo Claude
Levi-Strauss, afirmou que o ritual euclidiano em São José do Rio Pardo é uma
coisa boa para pensar.
Seu trabalho de pesquisa abriu um caminho instigante, que
eu, insistente participante dessa comunidade de destino, ouso trilhar, com o
objetivo de reconstruir a memória social dessa tradição, seus processos de mudança,
procurando decifrar as representações sociais ocultas por trás da comemoração. A
cidade de São José do Rio Pardo identifica-se com um homem e suas criações: Euclides
da Cunha, a ponte sobre o Rio Pardo, o livro Os Sertões. Em conjunto,
representam símbolos poderosos, ideais e aspirações referenciais, centros de
irradiação de uma identificação coletiva, incensados e realimentados anualmente
através de comemorações oficiais.
A ponte transformou-se num símbolo sagrado. Está
representada no brasão, na bandeira, no hino, em lemas e emblemas da cidade. Euclides da
Cunha é nome muito lembrado para marcas e logomarcas, para nomear crianças, escolas e
lugares. No entanto, é em torno das obras do escritor, especialmente do livro Os
Sertões, que a comemoração se realiza e a teatralização do ritual
se inspira.
Citando o historiador Eric Hobsbawm, Regina Abreu afirmou que
o culto a Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo constitui um exemplo notável
de invenção de uma tradição no Brasil, com ritual que se repete anualmente desde 1912.
Mas, que tradição é essa que nos caracteriza e nos identifica? Cansamos de responder a
essa questão com explicações históricas ou remetendo aos mitos de origem. Contudo, já
está mais do que na hora de nós mesmos decifrarmos essa tradição. Se nos
sentimos diferentes, esta e uma resposta que só nós podemos dar.
Para que isso aconteça, precisamos nos libertar das aparências
e mergulharmos na essência: conhecer a elaboração interna da comemoração ,
compreender os processos de escolha, o curso da tradição, traduzir os fatos, decifrar os
símbolos, analisar os discursos, interpretar as nossas emoções. Ou será que somos
ingênuos a ponto de supor que tudo ocorreu e ocorre ao acaso, cega e automaticamente?
Outra questão fundamental é analisar as formas de
ritualização ou a performance da tradição, que, na verdade, nada mais
são que teatralizações de valores da nossa coletividade. Durante uma semana quebramos
nossa rotina e mergulhamos na festa: desfile,cerimônias, solenidades,
exposições artísticas, apresentações musicais, ciclos de estudos, conferência,
maratona intelectual, competições esportivas, encontros, romaria cívica e, em outros
tempos, bailes, coquetéis, banquetes. Em cada um desses rituais há uma dramatização,
com atores e espectadores específicos, com temas, mensagens e intenções especiais.
Em todos observamos a mesma característica: pessoas reunidas,
confraternização de grupos e de categorias sociais, momentos solenes ou informais,
comportamentos descontraídos ou formais, gestos, simbolos, roupas, uniformes, fantasias,
palavras, expressões. Durante uma semana saímos do convencional, modificamos nosso
comportamento e adentramos em um tempo extraordinário, especial. Vale a
pena observar os atores e os espectadores de cada celebração, os notáveis, os
organizadores, fazer um balanço dos espetáculos bem sucedidos, dos fiascos, dos
ridículos, dos despreendimentos e solidariedades sociais, das grosserias, dos interesses
e das ideologias. Mais uma pergunta: todos quebram a sua rotina, todos participam da
comemoração, ou fazemos a festa juntos, mas cada um no seu lugar?
As performances dessas comemorações desempenham
papéis sociais e pedagógicos muito profundos, com os mesmos significados dos manuais
escolares. Analisá-las é compreender quem somos, o que temos sido, o que desejamos ser;
é decifrar nosso passado, nosso presente e ligá-los ao futuro, fundamentando nossa
mentalidade. Por trás dessas comemorações estamos
nós, nossos desejos, interesses, imagens, valores e emoções. Somos nós que
comemoramos. Os conhecimentos que produzimos, as emoções que vívenciamos, as imagens que criamos e os valores
que cultuamos correspondem a uma procura nossa, a uma versão desejada por nós. Tenho
certeza de que as comemorações euclidianas continuarão sendo uma coisa boa pra
pensar.
Carmen
Cecília Trovatto Maschietto é professora na F.F.C.L. de São José do Rio Pardo
e mestranda na Universidade do Rio de Janeiro, UNIRIO |