A história de Euclides da Cunha, a
história da república e a história da cidade de São José do Rio Pardo têm diversos
pontos em comum. A temática desenvolvida por Euclides em Os Sertões e seus
desdobramentos funciona, principalmente, como uma poderosa síntese histórico-cultural do
Brasil republicano recente. Obra de referência obrigatória ao conhecimento do Brasil e
dos brasileiros, vertida, não por acaso, aos principais idiomas do mundo.
Vamos cogitar de um tempo em que o café se firmava como
principal produto da pauta de exportações brasileiras, trazendo divisas para o país e
chegava até o interior de São Paulo e Minas Gerais. Do ponto de vista ideológico o
orgulhoso positivismo ganhava os corações e mentes da república recente em nossa
nação e dentro deste quadro de uma certa firmeza em economia oriunda de exportações
agrícolas e uma nascente certeza na Religião da Humanidade surge uma
divergência séria, que de repente torna-se a maior de todas as divergências nacionais.
A orgulhosa república positivista nacional, com medo, quiçá, do exemplo que famélicos
fanáticos poderiam emprestar ao resto da nação, sufoca a existência da tentativa de
implantação de uma pequenina sociedade dissidente no interior da Bahia com quatro
expedições militares aparelhadas com equipamento de ponta para a época. Delenda Canudos
era um dos motes da república, nenhum tipo de acordo possível com o que estava
acontecendo por lá.
Euclides da Cunha vivenciou a transição do Império à
república em pungentes episódios existenciais. Acompanhou pela imprensa e, ao término
como o primeiro correspondente de guerra da história do Brasil, o desenrolar dos
acontecimentos que tiveram lugar no interior da Bahia em fins do século passado. Em sua
vida buscava a verdade, a transparência, e vivia e interpretava o mundo de acordo com o
que propugnava o ideário positivista. Não poderia dar outra interpretação à Guerra de
Canudos senão aquela que está consagrada numa das principais obras da literatura em
língua portuguesa: Os Sertões.
Medeiam quatro meses entre o término da guerra e a queda de uma
ponte sobre o rio Pardo, importante ponto de escoamento do café produzido à sua margem
direita. Engenheiro enormemente capacitado, toma sobre si a incumbência de recompor a
ponte em terreno mais firme. Desloca-se com a família para São José do Rio Pardo ali
residindo durante três anos, período de duração dos trabalhos com a ponte e, segundo
seu próprio relato epistolar, o mais produtivo período de sua existência.
Na pacata cidade, mais precisamente na
cabana de zinco que faz construir à margem do rio Pardo, encontra Euclides da Cunha a
tranquilidade necessária a dedicar-se ao principal trabalho de sua existência. De fato,
o livro toma corpo em São José do Rio Pardo, de onde segue o escritor com sua família
para São Carlos do Pinhal e, de lá, para Lorena. E é em Lorena em 1902 que lhe chega a
noticia da editora Laemmert de que o livro estava publicado. A repercussão da obra, dada
a polêmica em torno do assunto e a proximidade dos fatos, além do potencial de
perenização com a análise precisa de um momento da conjuntura que sintetiza diversas
questões da formação social do brasileiro, conduzem Euclides da Cunha já em 1903 a ser
eleito para a Academia Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro.
Em síntese, o livro traz a Euclides a
fama imortal. Em São José do Rio Pardo as informações em torno do percurso existencial
de seu visitante mais ilustre propagam-se em todas as direções e de todas as formas. Por ali passou um poderoso emblema da
nacionalidade, morou e conviveu com os rio-pardenses um ser humano que sintetiza o que é
ser brasileiro em diversos aspectos, travou contato, dialogou e teceu laços de
camaradagem com diversas pessoas da comunidade; mestres de obras, trabalhadores da ponte,
em grande medida descendentes de italianos que migraram para substituir a mão-de-obra
escrava na lavoura cafeeira mas tinham múltiplas habilidades, fornecedores de gêneros e
serviços tanto à execução do labor público em que se esmerava (a reconstrução
da ponte) quanto à sua própria casa, esposa e filhos, um dos quais nascido em São José
do Rio Pardo, por sinal. Imagine-se um misto de Ayrton Senna com Antônio Houaiss no
princípio do século. Este é o paralelo a ser feito.
O falecimento trágico de Euclides da
Cunha em 1909 traz para comunidade que dele se recorda com tanto carinho uma comoção
social que poderia ser assim sintetizada. Um grande herói, emblema da nacionalidade e
um grande intelectual brasileiro a um só tempo. Para o rio-pardense de 1909 o principal
intelectual brasileiro, o maior herói, o principal emblema humano da nacionalidade deixou
de existir na trágica manhã de 15 de agosto. Começa o movimento euclidiano protestando
contra a impunidade do assassino do escritor e prestando honras e louvor à sua glória e
ao seu trabalho.
A 15 de agosto de 1912 um grupo de pessoas decide-se a
deslocar-se do prédio onde funcionava a sede administrativa da cidade até a cabana de
zinco para recordar-se do amigo ausente. Este gesto marca o início da Semana Euclidiana
de São José do Rio Pardo. Desde aquele instante até os nossos dias sempre se proferem
palestras sobre a vida e a obra de Euclides da Cunha na cabana de zinco à margem do rio
Pardo naquela data.
Em espirais crescentes pontos da cidade são separados como
traços de um grande monumento a rememorar ao povo que ali se cultua Euclides da Cunha:
em 1918 o jornal O Estado de S. Paulo doou uma pedra granítica na qual se afixou um
medalhão com a efígie de Euclides da Cunha. Em 1928 a cabana de zinco recebe um
tratamento especial e fica protegida sob uma redoma. Um hotel da cidade, de nome
Brasil, que recebeu hóspedes ilustres a proclamarem a república na cidade
três meses antes de que ela acontecesse de fato no resto da nação, recebe manifestantes
que rememoram o Episódio Republicano sempre na noite de 11 de agosto. Em 1946
a própria casa de serviu de moradia a Euclides
da Cunha quando esteve na cidade é separada pelo Estado de São Paulo para sediar o
movimento, guardando o acervo de livros, relíquias do escritor, fardas e armamento
utilizado em Canudos e, mais que tudo, a organização histórica de conferências
proferidas durante a Semana Euclidiana.
Em 1982 ocorre o traslado do Rio de Janeiro, do cemitério São João Batista, para São José do Rio Pardo,
dos restos mortais de Euclides da Cunha e de Euclides da Cunha Filho (morto em
circunstâncias similares às de seu pai). No Recanto Euclidiano hoje pode-se ver a Ponte
Metálica, a Cabana de Zinco , o Medalhão e o Mausoléu, onde se afixou uma placa em
bronze com trecho de uma carta de Euclides da
Cunha a Francisco Escobar, dizendo: Que saudades do meu escritório de sarrafos e
zinco da beira do rio Pardo. Creio que se persistir nesta agitação estéril, não
produzirei mais nada de duradouro. A cabana de zinco fica consagrada como o
lócus máximo da criação euclidiana. A capital é, meramente, o ponto em
que as pessoas se agitam estéreis sem nada conseguir produzir de duradouro. Patenteada,
portanto, a gratidão do escritor à cidade em cujo seio tornou-se possível a
efetivação do mais importante trabalho de sua vida.
O que acontece durante a semana
Euclidiana de São José do Rio Pardo?
Tudo o que possa de alguma forma rememorar Euclides da Cunha,
sua vida, sua obra, o civismo, o patriotismo, a ética, valores culturais. Há 88 anos seu
centro são as palestras ou Conferências Oficiais sobre Euclides da Cunha. Com o passar
dos anos mais conferências acontecem e o formato da Semana como a conhecemos hoje é
definitivamente estabelecido na década de 40.
Estuda-se história, filosofia, geografia, literatura, língua
portuguesa e psicologia. As atividades voltadas a atender ao público ligado ao mundo das
letras, contudo, atingem somente a uma parcela do coletivo euclidiano. Durante o evento
ocorrem exposições de arte, apresentações musicais populares e eruditas, competições
desportivas, bailes, feiras de livros e de artesanato e a principal manifestação
popular, o Desfile de Abertura, é preparado cuidadosamente pela municipalidade com meses
de antecedência.
Ocorrendo geralmente na manhã do dia 9 de agosto, mobiliza
todos os estudantes de todas as escolas da cidade e região circunvizinha, de Cantagalo,
terra de Euclides da Cunha, onde existe um núcleo euclidiano, de Canudos, no interior da
Bahia, onde tiveram lugar os eventos narrados no capítulo sobre A Luta do
livro Os Sertões. E empresas, agremiações desportivas, corporações
militares, associações de moradores, toda a sociedade civil organizada, dentro da
temática escolhida para a Semana Euclidiana daquele ano, apresenta o seu trabalho aos
demais demonstrando o que ocorrerá durante os festejos no ano em pauta
Professor
Lázaro Curvelo Chaves
Diretor da Casa de Cultura Euclides
da Cunha 1997/2000. |