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Muitos pés na frente do outro. Muitos morros, onde não se sabe onde terminam as descidas e começam novamente as subidas. As mochilas cada dia mais pesadas. As bolhas, que segundo os peregrinos mais experientes representam cada pecado que você tinha. Caminhar bem cedo, quase de madrugada, com frio ou calor, com sol ou com chuva.
Mas estar no meio da Serra da Mantiqueira onde permanecem as mais belas paisagens naturais do mundo compensa qualquer esforço. Pode-se existir muita pobreza, até miséria, mas ao adentrar nesses lares você percebe uma grande riqueza em calor humano e essas pessoas provam que podem ter uma vida simples, mas ali realmente mora a felicidade.
Esses são umas das coisas que mais marcam os peregrinos ao fazer o Caminho da Fé. Cada um com seu objetivo, mas todos com só pensamento, o de chegar na Basílica de Aparecida. Mesmo quem não é católico não consegue conter as lágrimas ao avistar depois centenas de quilômetros apenas a ponta da torre da catedral.
Principalmente porque o caminho é um caminho de fé e onde se passa percebe a felicidade nos olhos dos outros em saber que você está fazendo uma coisa que realmente é importante para eles. Muitos moradores fazem sua peregrinação até Aparecida, outros não, e eles vêem em você seu maior desejo e alimentam a esperança de um dia doar um pouco de si par Nossa Senhora.
Nesses 365 dias do Caminho da Fé, comemorado no último dia 12, cerca de 1400 peregrinos percorreram esse percurso e descobriram coisas que jamais imaginavam que dariam valor. Aprenderam pequenas coisas que engrandeceram suas vidas e descobriram que não precisam de muito para ser felizes.
O princípio é sempre a reflexão, a meditação, a busca interior. Ao entrar no universo do caminho você não sente mais dores, não possuí mais vaidade, não sente calor e nem frio. Você se torna uma pessoa realmente com um só objetivo - cada um com o seu - e quando volta é difícil explicar sua descoberta em palavras mas o seu íntimo sabe o que mudou.
Às vezes para fazer o caminho você tem que abrir mãos das coisas que mais ama no mundo. É um preço que você tem que pagar. E sempre você vai colocar na balança se valeu a pena deixar tudo para trás. As dúvidas sempre irão permanecem em seus pensamentos mas quando olha para dentro de si e retorna à sua mente tudo que aprendeu, realmente você entende que era o momento de descobrir um pouco mais de você mesmo.
Fiquei muito feliz pelo primeiro aniversário do Caminho da Fé. Me senti como se estivesse fazendo 1 ano de vida. Mais contente ainda por encontrar pessoas que se tornaram mais do que irmãos durante a primeira caminhada. Pessoas que durante o caminho abriram seu coração e mostraram seus reais sentimentos e isso fez com que nos tornarmos mais do que uma família.
A experiência de uma peregrinação é fantástica para qualquer ser humano. Mas a do Caminho da Fé é magistral. Todas as pessoas do mundo e principalmente de São João deveriam fazer essa peregrinação, pois muitas respostas para nossa vida podem estar aqui tão perto da gente e não temos coragem de ir atrás.
É um árduo caminho. ocê precisa abrir mão de muitas coisas. Vai se sentir sozinho mesmo com várias pessoas te dando apoio. Dormirá em lugares simples. Terá de aprender a conviver em grupo. Sentirá falta da família e das pessoas que mais ama a todo o momento.
Quanto mais se caminha, mais se tem vontade de chegar. Quando mais alta e difícil a subida, mais linda e fantástica é a paisagem lá de cima. Um simples copo de água ou até mesmo um “bom dia” é o que basta para seguir adiante. O sorriso, a fé e o olhar de esperança dos moradores desejando boa viagem são uma das simples coisas que te ajudam a seguir cada vez mais adiante.
Mas olhar de frente a Basílica de Nossa Senhora Aparecida e lembrar de tudo que aconteceu durante o caminho fazem com que você diga que tudo que andou ou todo seu sofrimento não foram nada perto de todo o conhecimento que adquiriu durante o caminho.
A SEGUNDA VEZ, A REFLEXÃO É COMPLETA
“A primeira vez é uma coisa muito bonita. É uma lição de vida, mas você vai além de seu limite. Na segunda já é pra fazer uma reflexão melhor porque você já tem conhecimento das dificuldades e assim vai mais preparado. Mas continua sendo uma reflexão de vida muito importante que tem que ser feito novamente. O que é bom você deve repetir.”
Celso, bancário de Mogi Mirin
Pretendo terminar meu livro
“Estou fazendo de novo por diversas razões mais a principal é para poder terminar o meu livro. Seu processo de criação está bastante espontâneo, mas a medida que vou escrevendo eu tento incluir mais coisas. Por isso eu quis viver de novo a experiência do Caminho da Fé para poder terminar meu livro que se chamará “Vá a pé”. É uma emoção diferente fazer pela segunda vez. Agora prefiro caminhar sozinha em silêncio, sempre um pouco mais para trás do grupo para poder rever os lugares com mais calma. Você já sabe o que está ali mas agora acaba vendo com outros olhos, mas sempre com o objetivo de completar o livro.”
Sandra, dentista de São Paulo
ME ENGANEI COMPLETAMENTE
“Da primeira vez disse que nunca mais caminharia de novo. Confesso que estava redondamente enganado. Vale a pena refazer o caminho, isso foi uma frase dita de cabeça cheia, da boca pra fora, foi uma questão de momento. Estar novamente nos lugares, rever as paisagens e as amizades que fizemos é maravilhoso. E realmente não penso em parar tão cedo.”
José Teodoro, massagista São Paulo
TODO PEREGRINO TEM UM MISSÃO, EU TENHO A MINHA
“O Caminho da Fé é para fazer pra sempre. Todos os anos nessa época deveríamos voltar a caminhar. Novamente foi incumbida em carregar a Santa até a Basílica de Aparecida pois tem tudo a ver com o que faço em minha vida. Então eu acabo entendendo que tenho uma missão como qualquer outro peregrino, mas essa é uma missão que jamais cansarei de cumprir.”
Nilsa, São Paulo
ENQUANTO TIVER SAÚDE EU FAÇO
“Por que estou fazendo de novo eu não sei. O que sei é que adoro fazer este caminho e enquanto eu tiver saúde eu quero fazer uso dela para permanecer nele porque além de bonito e maravilhoso, ele tem uma espiritualidade muito forte no ar e eu preciso dela para sobreviver.”
Valdir, dono de uma pousada em Inconfidentes
OS LAÇOS DE AMIZADES SÃO ETERNOS
“Eu não estou fazendo o caminho, apenas vim para rever os companheiros, pois formamos uma família nas duas caminhadas que nós fizemos. São laços que são difíceis de explicar que só se consegue quando caminha junto com outras pessoas. Um, dois ou onze dias como caminhamos faz com que os laços de amizades fiquem tão fortes que quando se lembra no nome da pessoa você tem alegria em recordar diversas passagens que ocorrerão durante a caminhada. E quando nos encontrarmos é como se estivéssemos com grandes irmãos que conquistamos na vida.”
José Augusto Silva, aposentado de Poços de Caldas
JÁ É A TERCEIRA VEZ
“Eu voltei porque o caminho é um caminho de fé. Fé a gente tem, mas é preciso sempre renová-la e fazer novamente é uma fonte para conseguir isso. Faço pela terceira vez e é incrível como o caminho cada vez torna-se diferente. Quando caminha muita coisa fica despercebida, então retornado a ele você vai sempre revendo o que conhecia e absorvendo coisas que deixou de observar.”
Pedro, bancário de Rio Claro
A FÉ POR MARIA CRESCE A CADA DIA
“Eu já tinha fé. Depois do caminho eu aprendi a dar valor em muita coisa. Passamos por vários lugares de tanta miséria e pobreza, mas ao mesmo tempo com muita riqueza e fé das pessoas. O mundo deveria entrar em contato mais com a natureza para ficar mais forte, poder refletir porque o que falta é tirar um tempo à religião ou o contato com Deus. Minha fé por Maria cada dia cresce ainda mais. Dessa vez não vou, mas com certeza eu volto.”
Malu, Águas da Prata
GRAVANDO O CD DO CAMINHO DA FÉ
“O caminho representou muita coisa para mim. Meu objetivo em fazê-lo é devido a um projeto de CD do Caminho da Fé. Mas foi muito importante pois algumas cidades por onde passamos tem tudo a ver com minha infância. Meus avós moraram em Consolação. Meu pai está enterrado em Santo Bento do Sapucaí, e eu tenho uma forte ligação com Paraisópolis. Fiquei muito contente agora pois acabei de tocar uma música do novo CD e as pessoas que estão aqui gostaram muito. Estou pesquisando alguns compositores desse trecho do caminho para enriquecer mais ainda o trabalho. As músicas que estão nele serão folclóricas, religiosas, que tem tudo a ver com o caminho, da reflexão, da mudança, da buscar interior. O caminho realmente leva você a várias conclusões. Cada um tem sua própria experiência. As dificuldades existem para todos mas é compensador. Você esquece os problemas que teve e só lembra das coisas boas que aprendeu. Não há rotina é um dia diferente do outro, confesso que fiquei fã com fé.”
Walgra, cantora de S.J.Boa Vista
AS BELEZAS NATURAIS DO CAMINHO
“Completamos um ano do Caminho da Fé com 1400 peregrinos. O que representa para todos em termos de amizade, relações e afinidades é simplesmente íntimo e pessoal de cada um. Portanto é muito frio dizer 1400 que representam o caminho pois se considerarmos as pessoas envolvidas o número realmente é muito maior. Se analisarmos o caminho de Santiago de Compostela ele é um caminho histórico e enriquecedor por se tratar de Europa, principal-mente por ficar na Espanha que tem uma linda história. Existem castelos, templos imensos e realmente vale a pena conhecer. O Caminho da Fé é diferente em termos de hospitalidade, religiosidade e calor humano que não existe na Europa, sem contar nossas paisagens naturais e a belíssima natureza exuberante que são muito mais belas que as deles. Garanto que todos que fazem Santiago, nesse ponto preferem o Caminho da Fé. As experiências são íntimas e pessoais de cada um. Ninguém consegue transmitir seu íntimo e suas experiências. Mas quando caminhamos no caminho formamos um família com todos que encontrarmos e fica muito difícil dizer em palavras o que sentimos ou descobrimos, mas todos gostam muito e formam um relação muito forte entre si.
Almiro Grings, repre-sentante do Caminho Fé
BUSCAR A MEDITAÇÃO
“O Caminho da Fé é muito bom para região pois além de representar o aspecto espiritual também incluí o comercial. Você tem ao longo do percurso várias pousadas que além do pouso também gera alimentação. Por isso em termos econômicos é muito importante pois você transita em uma regiões que não tem um grande fluxo de turistas. Mas o grande objetivo do caminho é a meditação, pois é neste momento que você fala com Deus, e por isso pretendo fazer o caminho entre 10 a 12 dias saindo de Tambaú, mais ou menos no meio do ano. Vamos sair em grupo mas meu objetivo é caminhar com uma certa distância deles para poder conseguir um boa reflexão. É o momento de fazer uma retrospectiva de sua vida, o que fez, e descobrir qual foi sua contribuição para com a sociedade e ver o que se pode fazer para ela no futuro. Acredito que estamos aqui a serviço “Dele” e é nessa hora que fazemos a pergunta, até que ponto eu servi esse irmão, além de servir do irmão.”
Wagner Beraldo, presidente da Agência de Desenvolvimento
Escrito por: Leandro Gulin
legulin@bol.com.br
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